A semana vibrou com dois acontecimentos. Em Londres, o nascimento do príncipe de Cambridge. No Rio, a chegada do papa. Um, lá longe. O outro, aqui pertinho. Mas, no mundo globalizado, não existem distâncias. Nem quebra de regras. As duas privilegiadas criaturas merecem tratamento especial. São pronomes criados nos tempos em que o português usava fraldas, mas esbanjam vitalidade até hoje. O garotinho é Sua Alteza. O pontífice, Sua Santidade.
Manhas e artimanhas
Pronomes de tratamento em que aparecem o Vossa ou o Sua têm duas manhas das quais não abrem mão nem a pedido de Deus. Uma delas: escrevem-se sempre com as iniciais maiúsculas. A outra: exigem o verbo na terceira pessoa: Sua Santidade chegou ao Rio na segunda-feira. Sua Alteza nasceu com quase quatro quilos. Vossa Excelência gostou do discurso do papa? Sua Santidade saudou os jovens.
Longe de mim
Por que os pronomes de tratamento exigem a 3ª pessoa? Porque não são pronomes pessoais. Os pessoais são as próprias pessoas. Daí o nome. Eu enós emitem mensagens (falam ou escrevem). Formam o time das primeironas.Tu e vós recebem as mensagens (escutam ou leem). Compõem a equipe das segundonas. Ele e eles são a mensagem (o assunto). O verbo, vassalo das donas do discurso, concorda com elas em pessoa e número: eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam.
Os pronomes de tratamento pertencem a outra estirpe. Foram inventados pra manter distância das pessoas. A história vem do tempo dos reis que se julgavam deuses. Os súditos não podiam se dirigir a eles. Quem o fizesse perdia a cabeça -- na forca ou na guilhotina. Pra manter a vida, os sabidos criaram o jeitinho.
Ao dizer Vossa Majestade, não se dirigiam ao rei, mas à majestade do poderoso. Ao dizer Vossa Excelência, dirigiam-se à excelência real. Ao dizer Vossa Senhoria, dirigiam-se à senhoria coroada. Depois, o cordão dos puxa-sacos se encarregou de bolar mais e mais formas: Vossa Santidade, Vossa Eminência, Vossa Alteza e por aí vai. Ora, se a majestade do rei pede o verbo na 3ª pessoa, e excelência vai atrás. O mesmo ocorre com santidade, eminência, senhoria.
Entendeu a jogada? O pulo do gato é este: fala-se com alguma virtude real, não com a pessoa.
Vossa e Sua
Na vida, ora falamos com alguém. Ora nos referimos a esse alguém. O pronome de tratamento colabora com a mudança. Ao falar com a autoridade, ela se torna segunda pessoa (o ser que escuta ou lê). O Vossa, então, pede passagem. Ao falar sobre a autoridade, ela se torna terceira pessoa. Dá-se vez ao Sua. Quer ver?
Na chegada do papa, a presidente o recebe com estas palavras:
-- Vossa Santidade é bem-vindo ao Brasil.
Mais tarde, ao contar pros assessores o encontro, começa assim:
-- Olhei Sua Santidade com emoção e lhe desejei boas-vindas ao Brasil.
Primo pobre
Sabia? O você pertence à gangue dos pronomes de tratamento. Quando veio ao mundo, era inteirão. Escrevia-se Vossa Mercê (graça, benefício, favor). Com o tempo, foi aderindo à lei do menor esforço. Virou vossemecê. Depois, vosmecê. Em seguida, você. Daqui a pouco, cê.
Sem bobeira: você é o ser com quem se fala. Por ser pronome de tratamento, exige o verbo na 3ª pessoa. Mas é pronome de segunda pessoa como tu e vós.
Fora de moda
Vamos combinar? Pronome de tratamento é coisa velha. Pertence ao tempo em que se tinha todo o tempo do mundo. Mas a redação oficial insiste em usá-los. Aí, cria-se o problema. A abreviatura de Vossa Excelência, por exemplo, é V.Exª. De Vossa Senhoria, V.Sª. Editores de texto nem sempre têm a forma do plural, que exige um essezinho colado no a. O jeito é adaptar-se.
Leitor pergunta
Escrevo a mão? À mão?
Eliezer Campos, Niterói
Trata-se da falsa crase. O acento evita ambiguidade. Compare: Bati a máquina. Bati à máquina. Vendo a vista. Vendo à vista. Escrevo à mão
Manhas e artimanhas
Pronomes de tratamento em que aparecem o Vossa ou o Sua têm duas manhas das quais não abrem mão nem a pedido de Deus. Uma delas: escrevem-se sempre com as iniciais maiúsculas. A outra: exigem o verbo na terceira pessoa: Sua Santidade chegou ao Rio na segunda-feira. Sua Alteza nasceu com quase quatro quilos. Vossa Excelência gostou do discurso do papa? Sua Santidade saudou os jovens.
Longe de mim
Por que os pronomes de tratamento exigem a 3ª pessoa? Porque não são pronomes pessoais. Os pessoais são as próprias pessoas. Daí o nome. Eu enós emitem mensagens (falam ou escrevem). Formam o time das primeironas.Tu e vós recebem as mensagens (escutam ou leem). Compõem a equipe das segundonas. Ele e eles são a mensagem (o assunto). O verbo, vassalo das donas do discurso, concorda com elas em pessoa e número: eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam.
Os pronomes de tratamento pertencem a outra estirpe. Foram inventados pra manter distância das pessoas. A história vem do tempo dos reis que se julgavam deuses. Os súditos não podiam se dirigir a eles. Quem o fizesse perdia a cabeça -- na forca ou na guilhotina. Pra manter a vida, os sabidos criaram o jeitinho.
Ao dizer Vossa Majestade, não se dirigiam ao rei, mas à majestade do poderoso. Ao dizer Vossa Excelência, dirigiam-se à excelência real. Ao dizer Vossa Senhoria, dirigiam-se à senhoria coroada. Depois, o cordão dos puxa-sacos se encarregou de bolar mais e mais formas: Vossa Santidade, Vossa Eminência, Vossa Alteza e por aí vai. Ora, se a majestade do rei pede o verbo na 3ª pessoa, e excelência vai atrás. O mesmo ocorre com santidade, eminência, senhoria.
Entendeu a jogada? O pulo do gato é este: fala-se com alguma virtude real, não com a pessoa.
Vossa e Sua
Na vida, ora falamos com alguém. Ora nos referimos a esse alguém. O pronome de tratamento colabora com a mudança. Ao falar com a autoridade, ela se torna segunda pessoa (o ser que escuta ou lê). O Vossa, então, pede passagem. Ao falar sobre a autoridade, ela se torna terceira pessoa. Dá-se vez ao Sua. Quer ver?
Na chegada do papa, a presidente o recebe com estas palavras:
-- Vossa Santidade é bem-vindo ao Brasil.
Mais tarde, ao contar pros assessores o encontro, começa assim:
-- Olhei Sua Santidade com emoção e lhe desejei boas-vindas ao Brasil.
Primo pobre
Sabia? O você pertence à gangue dos pronomes de tratamento. Quando veio ao mundo, era inteirão. Escrevia-se Vossa Mercê (graça, benefício, favor). Com o tempo, foi aderindo à lei do menor esforço. Virou vossemecê. Depois, vosmecê. Em seguida, você. Daqui a pouco, cê.
Sem bobeira: você é o ser com quem se fala. Por ser pronome de tratamento, exige o verbo na 3ª pessoa. Mas é pronome de segunda pessoa como tu e vós.
Fora de moda
Vamos combinar? Pronome de tratamento é coisa velha. Pertence ao tempo em que se tinha todo o tempo do mundo. Mas a redação oficial insiste em usá-los. Aí, cria-se o problema. A abreviatura de Vossa Excelência, por exemplo, é V.Exª. De Vossa Senhoria, V.Sª. Editores de texto nem sempre têm a forma do plural, que exige um essezinho colado no a. O jeito é adaptar-se.
Leitor pergunta
Escrevo a mão? À mão?
Eliezer Campos, Niterói
Trata-se da falsa crase. O acento evita ambiguidade. Compare: Bati a máquina. Bati à máquina. Vendo a vista. Vendo à vista. Escrevo à mão
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